Safra saíde cido habibe
Cido,
meu querido avô palestino de olhar penetrante e mente inquieta; de princípios éticos e morais inquestionáveis e de um coração enorme.
Eu não estava em Natal no dia 24 de dezembro, quando você partiu para sua nova viagem. Nem eu nem alguns de seus outros netos. Mesmo que não nos façamos presentes fisicamente, pode ter certeza que nossos corações estão aí, com você, com vovó Mary, nossos pais, tios, primos, parentes e amigos. Aliás, não preciso dizer isso, você sabe…
Nos vimos pela última vez no dia que viajei; passei em sua casa antes de ir para o aeroporto. Você não estava podendo falar, mas nossos olhos se encontraram, e disseram muito mais do que conseguiríamos verbalizar. Não foi um momento de despedida, e sim de encontro, e de entendimento. Apesar das poucas palavras, lembro-me de ter dito que o amo, que me orgulho de ser sua neta, e que farei o melhor que puder para honrar a sua trajetória de vida e o que me ensinou.
Hoje, quero agradecer a Deus por ser sua neta e por ter podido usufruir tanto tempo da sua companhia, do imenso amor com que nos cercou, das muitas lições de coragem, respeito e de amizade que nos deu ao longo dos anos.
Hoje, quero dizer a você, Cido, que sou grata pela semente de vida que plantou e me gerou, e que irá perpetuar-se em meus próprios filhos e netos. Sou grata por ter vindo para o Brasil, permitindo que nós nascêssemos em um mundo de paz. Sou grata pelo exemplo de trabalho, força de vontade e de dignidade que nos deu. Sou grata pelas histórias que nos contava sobre nossa família e as tradições árabes, pelas conversas, brincadeiras, broncas e risadas que ficarão em minha memória. Sou grata por sempre se preocupar mais conosco do que com você mesmo, e tentar nos apoiar para que nos tornemos pessoas cada vez melhores.
Você foi um avô maravilhoso, Cido!
Não falo árabe, mas gostaria de terminar dizendo algo na sua, aliás, na nossa língua natal. Safra saíde cido habibe. Allá Iekun maac.
(Boa viagem vovô querido. Deus o acompanhe.)
Sua neta,
Louise

